Principais conclusões
- São quatro dias no Peru, com uma lotaria para obter licença. Aqui, são duas horas na Bolívia, com um portão e uma capela.
- Parte da rede que percorria toda a extensão dos Andes, da qual grande parte do pavimento sobreviveu.
- De uma capela no cume até uma aldeia, com o veículo à espera no fundo.
- Sem licenças, sem filas e, muitas vezes, sem outro grupo no trilho.
A questão do nome
Camino del Inca significa estrada inca e, em inglês, a expressão Inca Trail foi quase inteiramente associada a uma caminhada de quatro dias no Peru que termina em Machu Picchu. Essa caminhada exige licença, uma corrida às reservas com meses de antecedência e recebe várias centenas de pessoas por dia na época alta.
Isto não é isso. É um troço diferente de outra parte da mesma rede antiga, noutro país, percorrido numa manhã.
Vale a pena esclarecer a confusão antes de reservar, porque quem espera a experiência peruana ficará desiludido e quem espera uma encosta boliviana tranquila ficará encantado, apesar de ambas as descrições se referirem ao mesmo trilho.
O que era a rede de estradas
O Qhapaq Nan, o grande sistema viário do Estado inca, estendia-se por dezenas de milhares de quilómetros ao longo e através dos Andes, desde o que é hoje a Colômbia até ao centro do Chile e da Argentina. Era a espinha dorsal administrativa do maior império que as Américas alguma vez produziram.
Servia para mensageiros, exércitos, caravanas de lamas e funcionários, e não para tráfego sobre rodas, pois o mundo andino não tinha veículos com rodas. Isso definiu a engenharia: degraus onde uma estrada europeia faria curvas em ziguezague, pavimento onde uma carroça teria precisado de algo mais liso e drenagem por todo o lado.
Grande parte foi construída sobre rotas mais antigas. Os incas foram o último e mais organizado de vários Estados a utilizar estas montanhas, e uma boa parte do que se chama estrada inca é anterior aos incas.
É difícil compreender a sua escala. Este era um Estado sem escrita no sentido europeu, sem ferro e sem roda, que construiu e manteve uma rede de estradas comparável em extensão à romana, através de um terreno muito mais difícil. O troço percorrido nesta visita é uma secção local sem nada de especial, e esse é precisamente o ponto.
Calçada original de pedra a descer pela encosta
O que aqui sobrevive
Muito mais do que a maioria dos visitantes espera. Longos troços da descida continuam pavimentados com a pedra original, colocada e ajustada à mão, com os canais de drenagem e os bordos de contenção intactos.
Sobreviveu porque foi bem construída, porque o clima do planalto é seco durante grande parte do ano e porque nunca ficou sob uma estrada ou uma povoação. Esta parte da Bolívia não foi urbanizada sobre ela.
Também passará por troços onde o pavimento desapareceu e a rota é simplesmente um caminho. Este contraste é útil: mostra o que a estrada construída realmente fazia.
Chataquila, no topo
A caminhada começa numa pequena capela na crista, um edifício branco e simples numa posição espetacular, alcançado por estrada a partir de Sucre em cerca de uma hora.
É um local de peregrinação local, e não uma atração turística, e a vista da crista apresenta todo o dia: as terras altas abrem-se e descem em direção aos vales por onde o trilho segue.
O trilho parte ao seu lado e começa logo a descer.
É também uma lembrança útil de que estas estradas ligavam lugares. Um trilho num parque nacional existe para ser percorrido; este existia para ligar uma povoação no cume a outra no vale, e tanto a capela no topo como a aldeia no fundo continuam lá. Não está a percorrer um monumento, está a utilizar uma estrada que simplesmente nunca deixou de funcionar.
2 h
A duração da caminhada, sempre a descer, desde a capela de Chataquila até Chaunaca, por um troço preservado da rede de estradas pré-colombianas.
A caminhada em si
Duas horas, sempre a descer, numa superfície irregular durante a maior parte do percurso. O declive é constante, em vez de acentuado, e não há zonas expostas nem necessidade de usar as mãos: isto é uma estrada e foi construída para ser percorrida a pé.
Exige atenção aos pés e um ritmo que respeite a altitude. A pedra molhada é escorregadia e, na estação seca, a areia solta sobre o pavimento liso tem um efeito semelhante.
A paisagem abre-se à medida que desce: matagal seco de altitude, campos em socalcos e o terreno erodido em tons de vermelho e ocre que antecede a cratera.
Chaunaca, no fundo
Uma aldeia no fim da descida, onde o veículo está à espera. Esse é todo o plano do dia, e é um bom plano: desce por uma estrada que existe há quinhentos anos ou mais e depois segue de veículo em frente, em vez de voltar para trás.
A partir daí, a estrada continua pela própria formação de Maragua, onde decorre o resto do dia.
A maioria das pessoas chega a Chaunaca com vontade de continuar a caminhar, o que é o sinal certo de que um troço de duas horas teve a duração ideal.
A outra coisa que chega a Chaunaca é uma mudança de paisagem. A descida começa em matagal aberto de altitude e termina no terreno vermelho e ocre que antecede a cratera, e a transição acontece de forma tão gradual ao longo de duas horas que a maioria das pessoas só se apercebe quando se vira para olhar para o ponto de partida.
Caminhar por uma estrada antiga
Há algo de particular em caminhar sobre uma superfície colocada à mão com esse propósito. Não é um caminho desgastado por pés; é uma obra de infraestrutura, planeada e construída, e a diferença sente-se sob os pés.
Também a percorre da forma como foi pensada para ser percorrida, algo que quase nenhum monumento antigo permite. Não há cordas, passadiços nem plataformas de observação.
Trate-a em conformidade. Mantenha-se na estrada, não mova as pedras e deixe-a tão utilizável daqui a quinhentos anos como tem sido nos últimos quinhentos.
